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Movimento operario do ABC paulista (1978-2010): Contestacao, intermediacao e colaboracion
Por Alessandro de Moura - Wednesday, Sep. 22, 2010 at 12:25 AM

Temos como foco o movimento de organização da classe operária do ABC paulista. Considerando que as transformações em suas formas organizativas ao final da década de 1970 e 1980. Discutimos alguns dos desdobramentos organizativos das greves operárias no ABC decorridas nos anos 1978, 1979 e 1980, tal com a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Retirado do site
http://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Aurora/5%20MOURA.pdf


MOVIMENTO OPERÁRIO DO ABC PAULISTA (1978-2010): CONTESTAÇÃO, INTERMEDIAÇÃO E COLABORACIONISMO


ALESSANDRO DE MOURA

Temos como foco o movimento de organização da classe operária do ABC paulista. Considerando que as transformações em suas formas organizativas ao final da década de 1970 e 1980. Discutimos alguns dos desdobramentos organizativos das greves operárias no ABC decorridas nos anos 1978, 1979 e 1980, tal com a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Consideramos tais metamorfoses face às transformações pelas quais passou o sistema produtivo brasileiro, e as entidades que reivindicam a representação dos trabalhadores. Consideramos ainda, a partir de 1990 as transformações ligadas ao novo período histórico da mundialização do capital. Trata-se de um período mundial de contra-reformas, onde o capital (enquanto relação social onde impera a dominação de classe) reorganizado impera de forma diferenciada sobre o trabalho. Subsumindo a classe operária do mundo todo.

Palavras chave: ABC paulista. Classe operária. Partido dos Trabalhadores. Central Única dos Trabalhadores.
focus on the movement to organize the working class in ABC Sao Paulo city. Whereas the changes in its organizational forms at the end of the 1970s and 1980s. We discuss some of the organizational consequences of workers' strikes at ABC elapsed in years 1978, 1979 and 1980, as the founding of the Workers Party (PT) and the Workers' Central Única. (CUT). We consider such transformations in the face of transformations by which the Brazilian productive system and the entities claiming the representation of workers. We also believe, since 1990 the transformations related to the new historical period of globalization of capital. This is a period of global counter-reforms, where the capital (as social relations dominated by the class domination) reigns reorganized differently about work. Subsuming the working class worldwide.
Keywords: Sao Paulo city. Working class. Workers' Party. Workers' Central Única





INTRODUÇÃO

A
classe operária brasileira teve importante momento de desenvolvimento na a partir da organização dos metalúrgicos do ABC paulista . O movimento operário do ABC tem seu período de maior desenvolvimento, organização e de ofensiva contra a burguesia durante os anos 1978, 1979 e 1980. Neste período a classe operária tem condições objetivas para aproximar-se da formação de um projeto para si. Porém, com a derrota da greve de 1980, somada a opção das direções sindicais do período em trilhar os caminhos das disputas eleitorais, tal potencial é esvaziado. Tal processo aprofundou-se ainda mais com a nova conjuntura nacional e internacional posterior a derrubada do muro de Berlim e do início do processo de restauração capitalista na URSS estalinizada.
Com a falência de processos ditos “alternativos”, tem-se novas base para a ofensiva neoliberal em nível mundial e, no Brasil particularmente, a derrota da frente popular representada na figura de Luis Inácio Lula da Silva – o Lula, com a vitória de Fernando Collor desenvolve-se um novo período de investidas da burguesia contra os trabalhadores. Tal investida acabou por operar no sentido de desconstruir as condições postas à classe operária enquanto classe para si . Cabe destacar que a classe operária continua sendo classe em si em relação à divisão social do trabalho (pois seus agentes ainda necessitam vender sua força de trabalho para manterem-se vivos enquanto corpo físico), mas deixa de ser classe no sentido sócio-político, agente com poder de transformação da realidade para si.

DAS PARALISAÇÕES POR FÁBRICA À GREVE GERAL METALÚRGICA

O movimento dos operários do ABC é um dos muitos movimentos sociais que eclodem durante a Ditadura Militar-burguesa no Brasil. Embora seja comum referir-se ao Golpe de 1964 como um golpe militar, é sabido hoje que os militares não deram o golpe sozinhos, pois uma parte da burguesia brasileira e do patronato apoiou o golpe, como no caso da FIESP, e mesmo uma parte da pequena burguesia, expressão do movimento “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, que reuniu cerca de 500 mil pessoas em São Paulo no dia 19 de março de 1964. Por isso parece-nos mais preciso indicar tal evento como um golpe militar-burguês. Principalmente porque o golpe teve um destinatário certo: o proletariado brasileiro, a burguesia entendia que era preciso “frear o avanço organizativo-contestatório dos trabalhadores”. (SALLES; MATOS, 2007).
Entendia-se que se havia aberto um período pré-revolucionário no País no inicio da década de 1960. Não apenas por conta do “povo na rua”, mas também por uma série de elementos constitutivos colocados durante o final da década de 1950 e primeira metade da década de 1960 (1955- 1964). Estes elementos se articulavam em uma totalidade concreta que colocava em risco a ordem burguesa propriamente dita (manutenção da propriedade privada, salariato governo etc.).
Os principais elementos constitutivos deste período pré-revolucionário eram: a) a crise econômica, com explosão inflacionária e déficits na balança de pagamentos. b) organização e radicalização do campesinato, com a insígnia “reforma agrária na Lei ou na marra”. c) organização, radicalização dos trabalhadores em greves políticas contra as políticas governamentais, bem como contra os “arrochos”, expressa pela deflagração de greves massivas deflagradas no período d) insubordinação, organização e radicalização nas Forças Armadas, com tendência a unificação com operários e com os camponeses. (SALLES; MATOS, 2007).
Com a Ditadura Militar-burguesa instaurada configurou-se um período que considerado não apenas contra-revolucionário, mais ainda de cassação das liberdades democráticas. Políticos, parlamentares, artistas, professores, militantes sindicais são presos, torturados e até mortos. Torna-se ampla e comum a intervenção e extinção de sindicatos, marcado por muitas prisões, morte de trabalhadores e sindicalistas. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema foi um dos sindicatos invadidos.
Em 1964 o Governo Ditatorial intervém no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas Mecânica e de Material de São Paulo, que era então presidida por Affonso Dellélis. Um dos principais objetivos de tal investida era localizar os nomes dos 1800 delegados sindicais acusados de serem simpatizantes ou ligados ao Partido Comunista. Estes trabalhadores foram presos, torturados, e ainda passaram a compor uma “lista negra” que os impedia de empregar-se novamente nas indústrias. Joaquim dos Santos Andrade (1926-1997) – conhecido entre os metalúrgicos e sindicalistas como “Joaquinzão pelego” – é indicado como “facilitador” da intervenção, como recompensa teria tornado-se candidato único à presidência da Federação dos Metalúrgicos de São Paulo em 1965. Joaquinzão também era apoiado pelo PCB.
Ainda, como fruto deste processo como forma de resistência, driblando o “sindicalismo pelego”, nasce a Oposição Sindical Metalúrgica de Osasco, ligada à Comissão de Fábrica da Cobrasma, a maior fábrica da região. A Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo opunha-se a gestão de “Joaquinzão pelego”, e também à estrutura sindical vigente no País, estrutura esta que Joaquim tornara-se principal defensor.
Mas não parou por ai, em 1967 o governo revoga a “Lei de estabilidade” prevista na CLT, substituindo-a pelo FGTS. A “Lei de estabilidade” assegurava estabilidade ao trabalhador empregado a mais de 10 anos em uma mesma empresa, este só poderia ser demitido em caso de “falta grave”. Estes trabalhadores normalmente recebiam salários maiores por conta dos anos de trabalho e dedicação. Então em momentos de cortes de pessoal por conta de variações de vendas, etc., o patronato ficava impedido de demitir estes trabalhadores, que tinham muitos anos de carreira dedicados ao trabalho e por isso recebiam maiores salários, tornando-se “mais caros” para o patronato. Com a Lei do FGTS passa-se a demitir este trabalhador, porém seria necessário pagar-lhe uma indenização (que é constituída mediante pagamento obrigatório feito pelo trabalhador e pelo empregador mensalmente). Com isso o patronato fica ainda mais livre para substituí-los por mão-de-obra mais barata, aumentando assim ainda mais a lucratividade das empresas (extração de mais-valia). Além disso, estes trabalhadores eram também portadores de uma série de experiências de lutas e resistências decorridas em períodos anteriores (como destaca LEITE, 2009). Com a revogação desta Lei o patronato ficou desimpedido para executar uma série de outras demissões e diminuir os custos com mão-de-obra.
Mesmo com toda a perseguição as organizações operárias, sindicatos, partido e demais entidades organizativas, o movimento operários, aos poucos é reconstruído. Fruto da mesma conjuntura, suas lutas caminham em paralelo com as de outros movimentos sociais da década de 1970. Embora portador de especificidades, pois foi um dos movimentos sociais que envolveu maiores contingentes de despossuidos de meios de produção, que lhe possibilitou radicalizar a contraposição às determinações do governo ditatorial-burguês. Quando a classe operária revolve parar de fornecer sua mão-de-obra, toda a produção também fica parada. Nada se produz. Frente a este fato objetivo, o conjunto da sociedade olhava para o movimento operário, tendo-o como referência. Era o prenúncio da possibilidade de desenvolvimento de um processo revolucionário clássico, com o movimento operário à frente de sua direção e os outros movimentos ao redor. Abaixo segue-se a localização do ABC.

Figura I - Brasil/Estado de São Paulo/Grande ABC













Figura II - Grande ABC



















Nesse sentido, pode-se dizer que o movimento operário do ABC paulista coroa um período de novos padrões de ação coletiva no Brasil. Período este onde emergem novos sujeitos políticos em plena Ditadura Militar-burguesa (SADER, 1991). Com isso abre-se um novo período de luta de classes no país marcado pela ofensiva proletária sobre o patronato industrial no Brasil e seu governo autoritário (ANTUNES, 1992). Disso deriva a constituição de experiências coletivas organizativas compartilhadas. São novas articulações proletárias que se desenvolvem a partir de experiências vividas e interesses comuns, como solidariedade de classe. A “classe em si” marcada pela despossessão dos meios de produção (e por isso, compulsoriamente obrigada a vender sua força de trabalho como mercadoria) de diversas formas organiza-se em ofensiva contra a ordem burguesa brasileira em sua fase militarizada. Trata-se de um período de rupturas com os padrões de legitimação da ordem ditatorial-burguesa, que defendia os interesses do patronato.
A mobilização no ABC é crescente durante toda a década de 1970. Durante o período muitas formas de pressão foram levadas a cabo pelo operariado. Existia em São Bernardo uma pressão proletária para que o Sindicato não fosse apenas um espaço físico, o sindicato era entendido por muitos operários como um espaço de luta. As condições de trabalho no ABC eram muito insalubres, segundo um dos nossos entrevistados que trabalhou na Volkswagen de 1975 até 2007, “o Barulho, parece que tem uma panela de pressão no ouvido, tem também a fumaça das empilhadeiras, o cheiro de óleo. Estourava veia nos olhos, tinham acidentes na prensa, mas a empresa não divulgava. Muito trabalho repetitivo, dores, inflamação de nervos, dores nas costas, pressão alta, agitação, você não conseguia dormir direito, problemas cardíacos”.

A GREVE DE 1978

A conjuntura de mobilização proletária, somada aos descontentamentos dos operários serviu como base de insatisfação, rebelião e organização da classe operária brasileira, o que culminou em 12 de maio de 1978, a partir dos operários da Scania-Vabis, em São Bernardo em uma grande greve, a primeira de uma longa série de greves que ficariam conhecidas como “greve dos braços cruzados, máquinas paradas”. Nesse tipo de greve, os trabalhadores permanecem nos seus postos de trabalho sem trabalhar. (Cf: ABRAMO, 1999: ANTUNES, 1992: FREDERICO, 1978: CHASIN, 1980: SALLES, E., MATOS, D, 2007: VITO; NETO, 1991).
As greves e paralisações disseminam-se pelo mundo fabril, só no ABC, os operários de 41 empresas entraram em greve. Em São Paulo são mais 6 empresas e em Osasco mais 3. Soma-se ainda, no segundo semestre de 1978, a greve de autopeças, e, em dezembro do mesmo ano na Villares, um trabalhador além de ser agredido pela chefia é também demitido, em solidariedade os trabalhadores desta fábrica decretam greve. No mesmo mês houve outra greve por reajuste na Resil. (ANTUNES, 1992). Totaliza-se na Grande São Paulo (onde se inclui o Grande ABC) mais de 150 fábricas paralisadas e em greve, com mais de 167 mil operários em greve durante todo o ano de 1978 (ABRAMO, 1999) .
Antunes (1992) destaca que as paralisações e greves de 1978 não tiveram organização prévia, deram-se por meio de decisões súbitas dos trabalhadores. Mas não por falta de capacidade organizativa, pois os processos de organização e mesmo discussão eram obstruídos pela própria conjuntura repressiva do Estado Militar-burguês. Por isso as ações dos trabalhadores tinham que ser rápidas e incisivas. O grande número de paralisações, em uma onda de levantes proletários dificultou sobremaneira as ações repressivas do Estado, embora, tenha havido grande número de demissões (característico da repressão patronal).
As paralisações e greves de 1978 rompem com o silenciamento imposto ao movimento sindical desde 1968 e do AI-5 (Ato Institucional nº 5), que utilizando-se de intensa repressão, prisões e assassinatos deixou o movimento operário na defensiva e amordaçado. Mas a luta operária não se construiu apenas com vitórias, após o ciclo de greve de 1978 houve demissões em massa de operários, tanto no ABC como na grande São Paulo. Na grande São Paulo a estimativa de demissões em 1978 foi de 1.200 operários (SADER, 1991).
Porém, no plano organizativo, as greves e paralisações de 1978 abrem as portas para outras manifestações e levantes operários, pois não escapam a subjetividade operária, pelo contrário, foram incorporadas como experiências vividas, percebidas e compartilhadas, servindo de substrato objetivo para a nova onda grevista de 1979, que se desenvolveu num plano organizativo mais intenso e articulado consolidado por meio da greve geral metalúrgica. (SALLES, E., MATOS, D, 2007).
Cabe frisar que não só os operários aprendem com a greve, o Estado Ditatorial-burguês e o patronato também tiram lições das disputas com os trabalhadores. Com isso Estado e patronato preparam-se para o novo embate em 1979, antecipam-se à reincidência do movimento grevista e lançam um pacote de reajustes para dividir o operariado. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP ), órgão de representação patronal passa recomendações a seus filiados de como proceder em caso de greve. As recomendações deixaram claro a disposição e os métodos que seriam empregados. Entre eles:

2. Não pagar em nenhuma hipótese horas paradas e não estabelecer acordos e compensações, pois não existindo no Brasil fundo para greve, esse será um excelente recurso para as empresas;
3. Tentar de todas as formas colocar os grevistas na via pública. (...) Com esta providência teremos a possibilidade de envolver o poder público. (...)
4. Suspender por um ou dois dias (disciplinarmente) aqueles que entrarem na fábrica sob condições de trabalhar e não cumprir o prometido. Em última instância dispensar um certo número de pessoas por justa causa, após, junto com o responsável pela área paralisada, pedir ao trabalhador que execute uma determinada tarefa (a negativa caracterizará um ato de insubordinação). Essa situação gera insegurança no pessoal. Geralmente após essa prática ou os empregados ou o sindicato pedirão a sustação das dispensas, propondo volta ao trabalho. (SADER, 1991, p. 303).

A GREVE DE 1979

Mas também entre os operários a capacidade organizativa avança muito. A disputa com o patronato acirra-se, e no dia 12 de maio de 1979 o sindicato declara paralisação. A greve começa na verdade a meia noite do dia 12 para o dia 13 de maio de 1979, iniciando-se com o “turno da noite”. Os operários em assembléia decretaram a greve geral, o próprio sindicato dos metalúrgicos do ABC, mais uma vez, ficou para trás.
No primeiro dia de greve (13 de maio), só em São Bernardo 42 fábricas e 90 mil operários estavam paralisados. Em Santo André totalizava-se 60 fábricas e 38.622 operários. E, em São Caetano foram mais de 25 mil operários que aderiram à paralisação. São Bernardo, Santo André e São Caetano juntos somavam 155.000 operários em greve. A greve é decretada ilegal pelo Ministério do Trabalho, mas, ainda assim permanece ativa como realidade objetiva. (ANTUNES, 1992: SADER, 1991: SALLES, E., MATOS, D, 2007). Lula e a direção do Sindicado mais uma vez são colocados à frente da direção da greve sem estarem preparados para ela. A insubordinação proletária vinha da base metalúrgica e não da direção sindical.

Foto 1 – Assembléia e 1979


























Nesse ano a extensão da greve para fora do ABC é ainda mais visível do que em 1978. As greves criaram uma fratura política-social que permitiam o desencadear de novos movimentos contestatórios. Frente ao avanço do movimento grevista, o Governo e o Patronato reagem, no dia 20 de maio de 1979 tem-se uma série de prisões de operários e militantes. No dia 21, as manifestações públicas no estádio Vila Euclides e no Paço Municipal são proibidas pelo Governo Militar-burguês. Tem-se certamente uma nova configuração ofensiva da classe contra a política imposta pela ditadura e contra o patronato industrial. A polícia vai para as ruas para dispensar, com pancadas, bombas e tiros as aglomerações operárias.
No dia 23 de março (uma quarta-feira), após 10 dias de greve é proposto pelo Ministério do Trabalho um “protocolo de intenções” aos operários em greve, mas esta proposta fica a cabo das demandas expressas na pauta dos metalúrgicos que decidiram recusá-la. Foi o suficiente para a polícia intervir nos Sindicatos de São Bernardo, Santo André e São Caetano. O Estado Ditatorial-burguês mostra a quem serve de fato, para que classe trabalha. O operariado resolve enfrentar o aparato repressivo, paus e pedras contra escudo, cacetete, cavalaria, camburão e bala.
Segundo relato de um operário entrevistado por nós e que viveu o período, “Em 1979 foi o tempo pior, bomba, cavalo, cachorro, bomba de efeito moral dentro da igreja [da matriz], senhoras grávidas, com criança nos braços, caídas dentro da igreja e agente se defendendo e correndo também” . Bolemos meios de arrecadar alimentos. (...) Tudo essa desgraceira nós passemos ai, foi difícil viu meu amigo...”. As operárias e esposas dos metalúrgicos faziam linha de frente na defesa dos piquetes, greves e paralisações. “Foi uma coisa muito bonita (...) Hoje em dia eu sinto uma emoção”.
Os dirigentes dos Sindicatos ficam à espreita, Lula, também despreparado, refugia-se por 48 horas no sítio de seu sogro. O comando de greve assume a organização do movimento. Mas a confiança em Lula, dirigente sindical, havia se desenvolvido muito em seus dez anos de militância no ABC (1969-1979), dessa forma, mesmo com todas as evidentes debilidades na sua forma de liderança, tornou-se impossível substituí-lo naquele momento. Não estava claro para o grande contingente de trabalhadores em greve naquele momento que Lula atuava claramente buscando de evitar a radicalização das greves, e contra o desenvolvimento de mecanismos de auto-organização. Tal orientação contribui em grande medida para impedir que outras lideranças se formassem a partir das comissões de fábrica. Nas assembléias plebicitárias apenas a direção do sindicato é que tinha direito a fala. O distanciamento de Lula do grupo dos pelegos permitiu-lhe, com uma roupagem um pouco mais combativa, estar a frente da greve, pois era um sindicato diferente do de São Paulo (de Joaquinzão Pelego) que falava explicitamente “contra a greve”. Embora Lula e a diretoria do sindicato do ABC não falassem contra a greve, desde o inicio preparavam seu fim. As greves deveriam limitar-se a funcionar como um instrumento para pressionar o patronato a sentar-se à mesa de negociações. Estas direções nem seque cogitava a hipótese de unificação das greves para lutar efetivamente pela derrubada da ditadura militar-burguesa. Lula inclusive se dizia contra uma greve geral alegando que as reivindicações dos metalúrgicos do ABC eram diferentes das dos metalúrgicos do interior e de outras categorias. (SALLES, E., MATOS, D, 2007).


Foto 2 – Lula fala aos operários em 1979


























Amparada pelo clima popular de organização, a greve do ABC contou com ampla solidariedade nacional. A burguesia responde a isso, lançando uma campanha televisiva em favor do governo Ditatorial-burguês e do patronato afirmando que os trabalhadores do ABC eram privilegiados, que tem os maiores salários do país, etc (ANTUNES, 1992). Generaliza a situação de pequenos grupos de trabalhadores altamente qualificados e com maiores salários para o restante do operariado do ABC. Com isso pretendia-se minar o apoio popular aos metalúrgicos.
Somou-se a isso, a ausência de Lula, direção carismática, por dois dias que foi suficiente para aprofundar a desarticulação do movimento. O grande contingente de trabalhadores (mais de cento e cinqüenta mil) está rebelado e sem direção, sem saber ao certo o que fazer, era necessário dar direcionamento à massa de trabalhadores que queriam fazer algo. No dia 25 (Domingo), Lula é “forçado” a reassumir a dianteira do movimento, mesmo sob risco eminente de prisão, pois não se encontrava alternativa para a condução do movimento. Era necessária a articulação do movimento de greve, intensificação dos piquetes e não ingressar nas fábricas, e o fim do movimento grevista só seria definido em assembléia geral plebiscitária. Mas os rumos da greve já estavam comprometidos. Na segunda-feira (dia 26), mesmo com a manutenção da paralisação, um grande contingente de trabalhadores voltaram ao trabalho.
Com esse novo fato, o comando de greve - formado pela direção do sindicato e a comissão de salários – precisou reavaliar o movimento. Na assembléia geral de terça-feira (27 de março), completados 15 dias de greve, em uma votação apertada, sob insistência de Lula que queria acabar com a greve, a maioria decidiu pela volta ao trabalho e uma “trégua” de 45 dias para que o patronato apresentasse uma nova proposta. Ainda assim, o patronato preparou a retaliação ao operariado havia se organizado para lutar por suas demandas, muitos trabalhadores são demitidos.
A greve geral de 1979 teve importantes avanços organizativos, foi qualitativamente mais intensa e extensa que àquela de 1978, tanto em organização quanto em alcance. Em 1978 ocorreram uma série de paralisações parciais e greves, que ocorreram de forma dispersa e não coesa. Mas em 1979 a greve foi geral da categoria metalúrgica. O movimento além de conquistar parte de suas pautas, avançou também em sua organização e articulação, demonstrando avanço não só quantitativo, mas também qualitativo, pois suas manifestações paralisaram, só no ABC, mais de 150.000 trabalhadores, e ainda estendeu-se a outras categorias, cidades e estados. Somou-se um total de 436 estabelecimentos em greve no País com mais de 3 milhões de trabalhadores paralisados (ANTUNES, 1992, SADER, 1991).
Com as paralisações parciais de 1978 e a greve geral metalúrgica de 1979, a correlação de forças altera-se em favor dos trabalhadores. A onda proletária estava em ascensão. Porém, ainda neste momento os metalúrgicos do ABC não se entendiam enquanto vanguarda proletária do país, com possibilidade objetiva de re-determinar o desenvolvimento social e político do Brasil.
O movimento mostrava-se forte o suficiente para determinar mudanças político-salariais no País e influenciar outros movimentos, como a greve puxada pela Oposição Sindical em São Paulo que envolveu mais de 300 mil trabalhadores que exigiam a unificação com ABC para vingar a morte de Santo Dias, operário grevista assassinado em um piquete com um tiro nas costas, efetuado pelo policial militar Herculano Leonel a serviço da ditadura militar-burguesa. Também os trabalhadores e professores da USP (Universidade de São Paulo) deflagraram greve em 1979 (SALLES, E., MATOS, D, 2007). Por tudo isso, o governo Militar-burguês entendia como estratégico derrotar o operariado organizado, e redefinir a autoridade das políticas governamentais. O projeto passava por buscar, a todo custo, controlar totalmente o tipo de abertura que seria permitida, restringindo e reprimindo as alternativas apresentadas pelos trabalhadores por via direta.
Internacionalmente desencadearam-se outros levantes radicalizados, que o governo temia que pudessem ressoar no Brasil. No mesmo período em outros paises também eclodiram ações proletárias radicalizadas, como na Nicarágua que em 17 de julho de 1979, os trabalhadores, camponeses e estudantes, acabavam de derrubar a ditadura de Somoza. Também na Polônia, com a Comuna de Gdanski, os trabalhadores desencadeiam uma grande greve e insurreição política.
Com mobilizações operárias acontecendo dentro e fora do Brasil, diante do risco premente da radicalização do movimento operário brasileiro, que se organizara cada vez mais, o governo foi obrigado a ceder em alguns pontos para neutralizar o risco de ser derrubado pela insurgência proletária. Assim, como forma de desmobilizar os operários radicalizados, o governo Ditatorial-burguês viu-se obrigado a fazer uma concessão parlamentar eleitoral, em dezembro de 1979 modificou a legislação eleitoral e restabeleceu o pluripartidarismo partidário, com isso o ARENA (partido do governo Ditatorial-burguês) tornou-se Partido Democrático Social (PDS). E o MDB tornou-se PMDB. As lideranças sindicais do ABC, aliados com setores da igreja católica, sindicalistas e intelectuais lançam o “movimento pró-PT”, tentando criar o Partido dos Trabalhadores (PT). Interessante notar que Lula, no período era contrário à fundação do partido. Além destes, outros partidos foram criados, como o Partido Democrático Trabalhista - PDT, o Partido Popular - PP e o Partido Trabalhista Brasileiro - PTB. Os partidos comunistas e socialistas permaneceram proibidos. O PT não assumiu a defesa de legalização de tais partidos.

A GREVE DE 1980

Uma outra resposta do governo ditatorial-burguês foi definir uma nova política salarial, com regime diferenciado de aumentos, com conseqüente diferenciação de salários e correções periódicas. Com isso visava-se impor mais obstáculos à mobilização operária, o que por sua vez deveria reduzir os motivos e as possibilidades de greve, pois dificultaria a mobilização coletiva da categoria. Ainda, com a política salarial do governo, o operariado não poderia mais definir seus próprios reajustes. Com isso, seria possível também desassociar os aumentos de lucros do patronato, fruto do bom desempenho do setor, da obrigatoriedade dos reajustes salariais dos operários. Facilitaria a acumulação de capital dos industriais.
Porém, para o descontentamento do governo ditatorial-burguês e do patronato industrial, a proposta não teve aceitação no ABC paulista. Tendo como substrato as paralisações de 1978 e a Greve Geral Metalúrgica de 1979, estes resolvem dar inicio novamente a uma campanha em separado da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo (presidida por Joaquinzão pelego ) e do restante dos metalúrgicos do interior. Esta mobilização dos metalúrgicos do ABC foi pautada em um amplo processo de discussão, até 30 de março 1980, onde se decidiu pela greve geral, foram realizadas cerca de 300 assembléias preparatórias, onde se discutiu a construção da pauta e formas de mobilização, como a “Comissão dos 400” eleita a partir das fábricas, ela deveria ser o centro político da greve.
Seguindo deliberação de assembléia geral de 1980, com a presença de cerca de 66 mil operários, declara-se greve geral a partir de 1º de abril de 1980 . Participavam desta greve, num primeiro momento, mais de trinta sindicatos, não só do ABC, mas também de Sertãozinho, Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá, Piracicaba, São José dos Campos, Sorocaba, Campinas, Santa bárbara do Oeste, Araraquara, Américo Brasiliense, Ourinhos, Mococa, Jundiaí, Lorena (ANTUNES, 1992). O Tribunal Regional do Trabalho (TRT) pronuncia-se no mesmo dia sobre a greve geral, declarando-se incompetente para julgar a legalidade ou não da greve dado o grande número de sindicatos e cidades envolvidas na greve, decisão que foi comemorada pelos metalúrgicos como uma conquista da greve. Porém o Tribunal Regional do Trabalho lança uma contraproposta em relação à pauta dos operários, e esta faz com que setores dos metalúrgicos (principalmente do interior que tinham salários menores) voltem ao trabalho. Mas o ABC ainda considera que o acordo ao propor piso salarial para os metalúrgicos rebaixa o piso salarial no ABC, reafirmando que o patronato do ABC pode conceder maiores aumentos, e que é possível conseguir maiores reajustes. “Dos 140 mil metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, cerca de 90% permanecem em greve”. (ANTUNES, 1992, p.71).
Dada a intensa organização e debates que precederam a deflagração da greve, os trabalhadores já estavam preparados para uma greve de longa duração, e mostravam-se predispostos a enfrentá-la. Durante a greve de 1980 procurou-se não repetir os equívocos cometidos durante as greves anteriores, como, por exemplo, não concentrar a função de liderança em poucas pessoas.
O ABC, também não era um bloco homogêneo, assim como a classe operária também não o é, apenas oito dias depois de decretada a greve geral, em São Caetano a greve é encerrada. O Sindicato de São Caetano sai da greve no dia 8 de abril de 1980, mas São Bernardo, Diadema e Santo André mantiveram a greve. Neste momento permaneciam em greve cerca de 170 mil operários. (ANTUNES, 1992, p. 72). No dia 14 de abril de 1980, pressionado pelo patronato, pela burguesia e pelo Estado o Tribunal Regional do Trabalho declarou a greve ilegal, alegando que agora apenas dois sindicatos eram responsáveis pela greve, o sindicato de São Bernardo e de Santo André, estes ficam em posição de isolamento. Ainda assim, os operários resistem, em assembléia geral em São Bernardo, com cerca de 60 mil operários deliberou-se pela manutenção da greve, e denunciam:

Estão lutando contra os trabalhadores como se fôssemos inimigos da pátria, ladrões, assassinos. Patrões, polícia, governo, tribunais, rádio, televisão, jornal, tudo enfim, é utilizado para massacrar homens e mulheres que pacificamente, lutam por reivindicações reconhecidamente justas. (“Ao Povo Brasileiro: Por que continuamos em Greve”. Documento da Diretoria do sindicato dos trabalhadores, 15/04/80).
O governo ditatorial-burguês e o patronato reagem a esta declaração, e em 19 de abril de 1980 é realizada a intervenção nos sindicatos. Uma das preocupações do governo ditatorial-burguês, que justificaria suas ações, era de que as greves desestabilizavam não só o regime, mas também a economia favorecendo a crise econômico-política. Por isso o Governo orientou o patronato a não ceder às pressões dos trabalhadores, assegurando que o Banco Central e o Banco do Brasil arcariam com todos os prejuízos da greve.
Com 19 dias de greve Lula e toda a diretoria do Sindicato de São Bernardo (entre outros) é presa. Também são proibidas as reuniões e assembléias operárias em prédios e espaços públicos, tal como o Estádio da Vila Euclides. A prisão da direção do sindicato gerou impactos tanto sobre os trabalhadores como sobre o patronato. O patronato sentiu-se representado pelo Estado, comemorando as prisões. No seio do operariado intensifica-se a ojeriza contra o governo e o patronato. Porém, a organização dos trabalhadores era tão complexa que a prisão da diretoria não pode fazer a greve refluir, por conta da “Comissão dos 400” qualquer trabalhador que fosse preso poderia ser substituído rapidamente dando prosseguimento à greve.

Foto 3: Lula no camburão do DOPS 1980













Extraído do site: http://www.vozativa.kit.net/pagini71.htm

Foto 4: Prisão de Lula







Extraído do site: http://www.vozativa.kit.net/pagini71.htm



Como estavam proibidas as reuniões e assembléias operárias em prédios e espaços públicos, bem como no Estádio da Vila Euclides, nesse momento os trabalhadores passam a realizar suas assembléias na Igreja da Matriz. Mas sem dúvida estas proibições, somadas a prisão da diretoria do sindicato acabaram gerando impactos importantes sobre os trabalhadores. Mas ainda assim, no dia 23 de abril, decorridos 23 dias de greve, em São Bernardo 90% dos operários decidem por manterem-se paralisados, em Santo André a porcentagem de paralisados chega a 70%. (ANTUNES, 1992).
A greve encontra apoio nos bairros operários. Mas, as prisões continuam sendo realizadas pela ditadura militar-burguesa, a cada nova assembléia operária novos contingentes de trabalhadores são presos. Além disso, o patronato pressiona também psicologicamente os trabalhadores, uma parte dos operários sucumbem e voltam ao trabalho. No dia 1.º de maio, Dia do Trabalho, os operários do ABC fazem uma caminhada nas ruas do ABC, são centenas de milhares de trabalhadores marchando e cantando a música “caminhando e cantando...”, de Geraldo Vandré.





Foto 5 – Assembléia operária em 1980













No dia 4 de maio encerra-se a greve em Santo André. Mas em São Bernardo a greve continua, e se estende até o dia 11 de maio, completando 41 dias. Lula e a diretoria do Sindicato do ABC temiam a radicalização dos operários, por isso eram incapazes de fazer avançar o movimento, com tudo isso os metalúrgicos ficaram isolados politicamente. Nesses momentos mais críticos faltou também apoio de partidos que se diziam de esquerda e outras instituições àqueles operários mobilizados em greve (PCB, PC do B e MR-8 procuravam abster-se destes processos para não entrar em confronto com a suposta “burguesia nacional”). Lula e as direções dos autênticos não intencionavam estar à frente de um movimento radicalizado que impusesse as demandas dos trabalhadores (reforma agrária, educacional, tributária, administrativa, urbana e controle das remessas de lucros ao exterior, etc..), como relata em entrevista sobre o 1º de Maio de 1980:

O que eu sei é que durante muitos momentos, entre 78 e 80, não aconteceram coisas maiores no ABC porque a gente da diretoria não deixava acontecer (...). Uma vez tive que segurar um trabalhador entrando com bombas dentro da calça, a gente tinha que pegar o cara convencer que aquela não era amaneira correta naquele momento (...). Outra vez, o pessoal queria tocar fogo na Brastemp, e a gente tinha que convencer as pessoas politicamente que não era necessário fazer aquilo. Eu digo pra você que, se alguém dá um tiro naquele 1º de maio, teria uma carnificina em São Bernardo, não sei se estouraria uma guerra civil, mas tinha muito trabalhador preparado, muitos trabalhadores que a gente passava semanas tentando mostrar para eles que esse caminho é o fim do que a gente está pensando em fazer, nós não temos como resistir se começar uma coisa dessas. (LULA respondendo ao entrevistador José Arbex Jr. Revista Caros Amigos, 2000).
Esta disposição latente dos trabalhadores poderia ter sido aproveitada como ponto de partida para ações mais contundentes, que assegurassem o atendimento de demandas históricas dos trabalhadores e do povo pobre brasileiro, com derrubada da ditadura e instituição de uma assembléia popular soberana, que abrissem os arquivos da ditadura etc.. Mas não era esse o interesse de Lula e seus companheiros do sindicato. Como isso se tornou um representante que não representava a radicalidade que o movimento tinha potencial de assumir. A base estava muito a frente da direção, ficando por isso sem representação. É claro que isto não impediu que Lula e sua diretoria tornassem-se os representantes mais destacados do “novo movimento operário” em oposição aos “antigos pelegos”. Porém, mesmo que Lula e as demais lideranças sindicalistas não vislumbrassem além das ações sindicais-corporativas imediatas, a luta operária tinha cunho político significativo, para além da luta local/regional do ABC paulista. Tratava-se da manifestação explicita e continua da insubordinação da classe operária em relação ao governo, expressa em luta contundente contra a política econômica do governo ditatorial-burguês.
Destarte, com a derrota da greve de 1980 interrompe-se o ascenso das massas proletárias contra o regime militar-burguês. A partir daí teremos um importante refluxo do movimento operário a partir do ABC, que até então representava a vanguarda do combate operário. Para assegurar a continuidade do ascenso operário iniciado em 1978 era imprescindível a unificação dos operários do ABC com os operários de São Paulo liderados pela Oposição Sindical Metalúrgica. Esta articulação deveria ter sido empreendida desde o inicio do movimento do ABC pelas lideranças sindicais. (SALLES, E., MATOS, D, 2007).
Os impactos na subjetividade coletiva do proletariado, desencadeados por essa derrota objetiva da greve foram imensos, o que podemos compreender pelo intenso refluxo que se seguiu na bases do ABC. Mesmo com os avanços acumulados nos últimos três anos 1978, 1979 e 1980, a partir de então as greves não seriam retomadas nas mesmas proporções e radicalidade. A greve de 1980, embora muito mais ampla e articulada, todo o desenrolar da greve baseava-se em assembléias plebiscitárias em que só a direção do sindicato tinha direito a falar. Embora tenha sido um movimento amplo e abrangente, faltou programa político-social de maior profundidade para que a organização não refluísse. Para vitória desta greve faltou salto significativo como a articulação orgânica dos setores mais combativos (ABC e Oposição Metalúrgica).
Segundo Ricardo Antunes (1992), as lideranças sindicais que dirigiam o movimento não eram capazes de transcender a espontaneidade, também não tinham maturidade política para conduzir um movimento para além do local e do imediato, não se conseguiu construir um programa mais amplo. A greve deveria ter sido convertido em um movimento nacional de trabalhadores por uma nova ordem social. Mas, a direção não estava preparada (ou não tinha interesse) para conduzir um movimento com tal amplitude. A classe, enquanto agente ético-político, ainda estava em construção de si mesma. Para ampliar-se, o processo de desenvolvimento coletivo de ações radicais necessitava ser intensificado e extrapolar o ABC paulista.

O MOVIMENTO OPERÁRIO PÓS-ABC

A classe operária brasileira passa a ser vista nacionalmente com as greves operarias do ABC decorrida a partir de 1978, 1979 e 1980, ainda que aquém de sua potencialidade, a projeção da luta capital-trabalho ultrapassa sua dimensão local influenciando uma série de outros movimentos sociais no Brasil. Isso pode-se evidenciar pela organização da classe trabalhadora durante toda a década de 1980, pois a legislação anti-greve passa a ser ignorada, além dos metalúrgicos muitas outras categorias passam a fazer greve. Ainda como desdobramentos das greves do ABC tem-se a fundação do Partido dos Trabalhadores (1980), da Central Única dos Trabalhadores (1983) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (1984).
A fundação do Partido dos Trabalhadores articulou em torno de si membros da igreja católica, lideres camponeses, sindicalistas, socialistas, anarquistas, e trotskistas. Porém, internamente, mesmo o PT abarcando ainda outras tendências políticas minoritárias organizadas o Partido dos Trabalhadores será conduzido por Lula e pela articulação na mesma orientação política que desenvolveram na gestão do Sindicato do ABC. Ou seja, a linha privilegiava a luta econômica dentro da legalidade sem questionamentos profundos do status quo e da composição de classes no Brasil. O Partido dos Trabalhadores se propôs como instrumento de luta pela melhora das condições de vida da classe trabalhadora em si, alavancando uma luta massiva em torno das demandas imediatas dos trabalhadores, pautando salários, condições de vida, habitação, diminuição da jornada de trabalho (de 48 horas semanas para 44), lutas importantíssimas num país de desenvolvimento prussiano-colonial, mas que se dão nos marcos emancipação política dentro da ordem burguesa. Pois, não colocava-se a tarefa de atuar na transformação profunda da estruturação social do capitalismo brasileiro, ou pela busca da emancipação humana.
Nesse sentido, pode-se dizer que o movimento massivo dos trabalhadores, que chegou a mobilizar 3 milhões de grevistas no País em 1980, não foi aproveitado em toda sua potencialidade concreta, as direções do movimento poderiam inclusive ter pressionado também pela retomada das “reformas de base” (reforma agrária, educacional, tributária, administrativa, urbana e controle das remessas de lucros ao exterior, etc.) nas necessidades históricas do proletariado brasileiro, porém concentrou todas as forças no movimento pela “redemocratização do país” . Ora, não estamos nem sugerindo que Lula, o PT, a CUT deveriam lutar para dissolver a sociedade de classes, abolir a propriedade privada e instituir um governo operário, mas que seria possível naquele momento (1980) centrar forças na realização das demandas históricas da classe trabalhadora, por meio da construção de um partido revolucionário. Ao invés disso, seguiram-se as demandas colocadas pela pequena e média burguesia, sintetizadas no programa do PMDB.
Assim, embora o Partido dos Trabalhadores tenha se configurado como uma alternativa partidária a mais, fortalecendo a luta pela “redemocratização” buscando inserir medidas e discussões que pudessem favorecer os trabalhadores, a pauta operária foi rebaixada para a apelação “trabalhador vota em trabalhador”, e para a reafirmação do PT como “Partido sem patrão”, o que fortalecia a identidade do trabalhador brasileiro, mas não libera o trabalhador da condição de subsunção social da Divisão Social do Trabalho. O PT com sua ala majoritária (a Articulação-PT), acabou por ceder ao trabalhismo, a uma aliança operário-burguês conduzida de acordo com as demandas da pequena e média burguesia, com isso, a representação dos trabalhadores é esvaziada. Acabou-se migrando dos conteúdos da ‘frente popular’ para a aliança capital-trabalho, abrindo mão de travar uma luta intransigente contra a desigualdade no Brasil, seguindo tal raciocínio pode-se pensar que desde suas primeiras disputas eleitorais o PT já não era mais capaz de promover transformações profundas na estruturação social brasileira.
A partir de 1980 o ABC, de certa forma, sai da cena política, deixando sua posição de símbolo da resistência contra a ditadura, passa a figurar como apenas mais um movimento reivindicativo, assim, perde a posição de vanguarda em busca da transformação da ordem social e política. A significação deste processo é relevante, pois do período dos levantes proletários até 1980 são os operários que dirigirem o processo insurrecional e colocam suas demandas, a partir da derrota de 1980 esse papel passa a ser exercido pela pequena burguesia. Agora o movimento sindical é mais um movimento que apóia a “redemocratização” e a “saída negociada” da ditadura militar, porém, nem mesmo é o condutor desta luta, ela é conduzida agora pelo PMDB, caracterizado nas palavras de Fernando Henrique Cardoso, um de seus fundadores, como “um partido composto pela classe média, urbana e universitários”. Um partido pequeno-burguês.
Esta saída pactuada impediu a derrubada do regime militar-burguês e da base que lhe garantia sustentação: a burguesia e o patronato. Impediu assim o movimento operário de trilhar um desenvolvimento autônomo em relação às classes dominantes e seus consortes, esta opção levou ao progressivo fortalecimento das classes dominantes brasileiras. A burguesia e o patronato, em busca da conservação hierarquia de classes, seriam agora os condutores do proletariado e do povo pobre impedindo que os trabalhadores se articulassem como classe revolucionária contra a estruturação secular que os subsume. A burguesia e o patronato agem novamente como forma de dissolver a organização da classe operária, os sindicatos continuaram sendo interditados pelo governo ditatorial-burguês. Com isso prolongam seu sistema de dominação.
Também, durante a década de 1980 Lula e as demais lideranças sindicais destacadas durante as greves concentrar-se-ão muito mais nas disputas eleitorais. A opção das lideranças sindicais pela busca da melhora das condições de vida e trabalho por via eleitoral-burguesa, acaba por exercer forte ressonância também sobre a base do sindicato do ABC, que por fim, em um processo cheio de nuances, tem como uma de suas principais conseqüências redefinir todo o rumo da militância no ABC, a luta maior agora era pela construção do partido (PT) e das disputas eleitorais , ou seja, referenda-se a divisão social do trabalho e a sociedade de classes. Esta máxima irá marcar todas as lideranças sindicais do ABC ao longo da década de 1980, como se pode observar por exe. os intensos esforços na campanha a eleição de Lula para governador de São Paulo em 1982 (mas perdeu para Franco Montoro) e para Deputado Federal em 1986, sendo um dos candidatos mais votados.
Soma-se a tudo isso, como elemento problematizador, que o Partido dos Trabalhadores (PT) é fundado justamente “em cima” do inicio do refluxo do movimento operário, com isso as disputas eleitorais são colocadas como uma forma de reação pela positiva, como se a abertura política simplesmente, com a reabilitação do regime democrático-burguês representativo, pudesse assegurar a melhora das condições de vida do proletariado brasileiro. Enquanto que na verdade, o Estado burguês é o comitê armado de representação das demandas das classes dominantes possuidoras de meios de produção (terra, máquinas e tecnologias). As esperanças de um futuro melhor são canalizadas pela ala majoritária do PT para a disputa eleitoral distanciando-se do enfrentamento direto contra o Estado e o patronato, como os trabalhadores fizeram em 1978, 1979 e 1980. Ou seja, o PT, que surge em meio à resistência proletária contra a ditadura e os impactos da derrota da greve de 1980, ao invés de pautar-se pela derrubada da Ditadura e pelo estabelecimento de um novo governo de trabalhadores, acabou optando por lutar pela abertura lenta e gradual, pela redemocratização, referendando ativamente a estrutura eleitoral burguesa, apostando nas transformações sociais por via parlamentar-burguesa.
O que se pode reter como elemento positivo é que mesmo a derrota do movimento grevista de 1980 não pode reverter o desgaste que o governo e o patronato foram expostos pela ação operária organizada. Os trabalhadores, mesmo que em outros patamares de mobilização e de radicalidade, com a pauta redefinida, continuam a se organizar. Dentro e fora das fábricas mobilizações operárias continuavam a acontecer.
Salvaguardado a nova fase do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, o patronato representado pelo governo burguês retomou a normalidade das dominações sobre os trabalhadores. Avançam a introdução de técnicas produtivas que poupam mão-de-obra e geram demissões. O sindicato se dividia entre a luta pelas “Diretas já” (iniciada em março de 1983) e o apoio às greves. O governo é irresoluto, e em 1983 empreende mais uma intervenção no sindicato do ABC, completando quatro intervenções neste sindicato. As políticas anti-proletárias não param, mas já adentram no período de passarem quase “despercebidas” pelas direções sindicais.
Embora ainda sobrevivesse certa disposição operária para a luta e enfrentamento, não era mais essa a estratégia central das direções das alas majoritárias do Sindicato do ABC, do PT ou da CUT. Porém, mesmo que o caráter da ação política do ABC tenha mudado muito a partir da derrota da greve de 1980, não se pode negar que a intervenção destes operários acabou por re-inaugurar o período de organização social no Brasil. Com a eclosão das greves no ABC a legislação que proibia as greves virou letra morta, prova disso é que as greves continuaram acontecendo durante toda a década, mas a legislação só foi alterada com a constituição de 1988.
Mesmo com a ausência de lideranças combativas, as greves continuavam a eclodir, independente da vontade da ala majoritária do Partido dos trabalhadores (a Articulação-PT), da Central Única dos Trabalhadores e da direção do Sindicato do ABC. Porém não pode retomar a amplitude e combatividade demonstrada pelo movimento operário anteriormente. A formação da CUT, impulsionada pelo PT não pode ser descolada da forma de ser assumida pelo PT. Sua perspectiva social-política estava em consonância com as determinações do PT, porém cabe comentar um momento específico da trajetória desta instituição, a deliberação pela mudança da estratégia de luta da CUT em 1988, de uma estratégia entendida pela organização como sendo confrontacionista para uma prática de cooperação conflitiva. Isso marcaria uma nova fase de dialogo e busca de acordos como o patronato e com o Estado. A tática de greve não chega a ser completamente abandonada, mas sua importância é redimensionada.
Cabe ressaltar, que tal estratégia é adotada no III Congresso da CUT, realizado ainda em 1988, quando ainda no Brasil não havia chegado os impactos do refluxo mundial e nem o neoliberalismo. A base da CUT não aceitou facilmente tal mudança de postura, porém a direção da organização empreendeu intensos esforços para moldar a base do operariado nos marcos do colaboracionismo de classe determinados por esta cooperação conflitiva. Pode-se até mesmo cogitar se esta não era já uma estratégia para eleição de Lula no ano seguinte.
Pode-se dizer que a partir deste momento intensifica-se a concentração na saga do PT e da CUT pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva que concorre às eleições presidenciais de 1989, formando a coligação “Frente Brasil Popular” composta por PT-PSB-PC do B. O movimento pela eleição de Luís Inácio Lula da Silva constituía estratégia principal do PT e da CUT naquele momento. Diz o suplemento do PC do B (Figura 1) “Durante as discussões para a elaboração do programa da frente Brasil popular, processo rico que aprofundou a unidade política entre os partidos que a integram, todos eles apresentaram seus projetos, cuja síntese resultou no programa da frente”.

Figura 3: Campanha eleitoral de Lula –1989



































Extraído do site: http://www.iisg.nl/today/nl/07-05.php


















Foto 6: Discurso do candidato Lula









Extraída site: http://www.midiaimpressa.ufrj.br/html/serie_debate/triunfo_da_pequena_politica.htm


Mas mesmo com todos estes esforços Lula não fora eleito presidente em 1989. Para muitos sua eleição já não era sinônimo de um futuro melhor. São muitos os elementos utilizados para explicar sua derrota em 1989. 1) sua posição de isolamento com relação às alianças políticas, 2) somado a divisão do eleitorado, inclusive no próprio ABC paulista (tabela 01), 3) com a vinculação de Lula ao stalinismo pela oposição, 4) refluxo internacional decorrente da derrubada do muro de Berlim e da derrocada do stalinismo, que propiciou as restaurações burguesas e avanço do neoliberalismo em nível mundial, 5) somado a uma mídia brasileira aliada a burguesia anti-estatal e contraria a eleição do sindicalista (FONSECA, 2005), 6) a influência dos escândalos que envolveram Lula e o PT, como a polêmica gerada com a entrevista da ex-namorada Mirian Cordeiro acusando Lula de incentivar o aborto da filha Lurian, e ainda 7) o desempenho de Lula no ultimo debate, 8) bem como as insinuações divulgadas a larga manu de que os seqüestradores do empresário Abílio Diniz tinham ligação com o Partido dos Trabalhadores.
Pode-se dizer que a somatória de tais elementos é que podem ter levado Lula e o PT a morrerem na praia. Lula acabou, por um pequeno percentual de diferença, sendo derrotado no segundo turno pelo governador de Alagoas Fernando Collor de Mello do quase inexpressivo PRN (Partido da Reconstrução Nacional), mas que apoiou-se em uma campanha milionária.
Collor acabou conseguindo ser respaldado pela burguesia brasileira (mesmo que por falta de alternativa), e ainda por uma parte da própria base do sindicalista. Como podemos observar, na tabela 01, até mesmo a classe operária ficou dividida na hora de eleger o candidato, pois o discurso de Collor de Mello voltou-se também para os trabalhadores, Collor destacava que governaria contra os “marajás” (que sugere a burguesia), e em favor dos “descamisados”, (que sugere o proletariado brasileiro).






Tabela 01 – Votação presidenciais no Brasil e no ABC – 1989








Fonte: Jornal “Diário do grande ABC, 20/12/1989: 23/12/1989. Apud ALMEIDA 1996.


Dada a composição de sua base e propostas, pode-se dizer que a derrota de Lula representou, em determinada medida, a derrota da “ala trabalhista” e assim da própria esquerda que se formava no Brasil durante a década de 1980. A derrota de Lula nas eleições presidenciais abriu ainda um vácuo político-ideológico importante que possibilitou o avanço do neoliberalismo no país.

A DERROTA DA “ESQUERDA TRABALHISTA” E A VIRADA NEOLIBERAL

Com a derrota de Lula, e de sua coalizão, materializa-se também a derrota política do setor mais próximo da classe operaria brasileira. Vencem as propostas da burguesia, representadas na figura do candidato, então eleito, Fernando Collor de Mello, que daria início à implementação do programa neoliberal. Pois, com a derrota das propostas populares tem-se respaldo para a implementação das políticas neoliberais também no Brasil. Comprometido com as oligarquias do país e com a política neoliberal.
As reformas iniciadas no período do governo Collor e aprofundadas por Fernando Henrique Cardoso atingem categorias assalariadas importantes, como os metalúrgicos, base do sindicalismo organizado no país. Entre as reformas do Estado, estimula-se a reestruturação produtiva, que acaba por constituir uma investida do capital na produção debilitando ainda mais as condições de articulação e de vida da “classe” trabalhadora, pois estabelece novos níveis de precariedade no mundo do trabalho.
Na indústria brasileira, principalmente na indústria automobilística, uma das mais importantes bases de sustentação da economia nacional e núcleo da classe operária brasileira, desenvolve-se uma onda de demissões e falência de empresas, principalmente autopeças e, em menor medida, montadoras. Só nas montadoras do ABC paulista tem-se, de 1990 á 1992 o fechamento de mais de 6000 postos de trabalho (LEITE, 2000). Passa a ocorrer ainda, com mais freqüência, a adoção de técnicas do toyotismo. Segue-se uma serie de transformações que envolvem desde políticas governamentais (como as Câmaras Setoriais) até o chão-de-fábrica, com a reorganização das plantas produtivas, que implicariam, de modo geral, no retrocesso de conquistas históricas do movimento dos metalúrgicos do país, bem como a pulverização do movimento operário.
Cabe notar ainda, que setores do próprio movimento operário, principalmente das montadoras de veículos, como no caso da Força Sindical, acabam por apoiar a adoção do neoliberalismo com enxugamento dos gastos do Estado e flexibilização da CLT.
As entidades representativas (CUT/PT e Força Sindical/PDT) passam a assumir a postura de busca de “acordo” para o desenvolvimento (quase incondicional) do capital, como forma de tentar recuperar o setor, exemplo disso foi a opção da Força Sindical pelo “sindicalismo de resultados”. Embora a Força Sindical tenha criticado a abertura comercial como geradora de desemprego, acabou por defender a adoção do neoliberalismo no Brasil. Soma-se a isso, como agravante, o posicionamento da CUT com a adoção do “sindicalismo propositivo” em detrimento do “sindicalismo de confronto”. Tais mudanças estratégicas acabam por conferir uma nova característica ao sindicalismo brasileiro. Como explica Boito em relação a CUT:

Em 1990, a CUT, reunida em plenária nacional na cidade de Belo Horizonte, adotou uma linha sindical que sua direção denominou, seguindo uma terminologia já consagrada na Europa, sindicalismo propositivo. A antiga linha sindical, conhecida como sindicalismo de confronto, deveria ser substituída por uma nova estratégia que passaria a valorizar o entendimento com o governo e com os empresários, em torno de propostas elaboradas pela CUT para os “problemas do país”. A estratégia propositiva levou a CUT a desviar-se do combate à política neoliberal e procurar, em inúmeros aspectos, uma acomodação com essa política. (BOITO, A. 2002, p. 67).
Diante de tal turbilhão de transformações na relação capital-trabalho, e na composição orgânica do capital, com aumento do desemprego, e reordenação dos partidos de esquerda, os sindicatos mesmo os de herança mais combativa passam a diagnosticar uma nova onda de refluxo no movimento sindical, buscando, cada vez mais, ações “propositivas” e de “concertação social”. Com isso, também os sindicatos tendem a optar, com mais facilidade, por uma postura de negociação, ao invés do confronto com o capital, até mesmo o sindicalismo dos metalúrgicos do ABC paulista, que se constituía como o mais organizado e combativo do país segue a conciliação com o capital. Uma vez desarticulado o movimento dos trabalhadores, com a “captura” dos dirigentes dos trabalhadores e dos sindicatos para o interesse do capital, somado ao acelerado aumento do índice de desemprego, tem-se um enfraquecimento amplo dos obstáculos aos novos padrões de exploração e lucratividade que o capital pretendia impor.
Assim, as reformas neoliberais atingem categorias assalariadas importantes do Brasil, como o caso dos metalúrgicos, base do sindicalismo organizado no país. Nesse sentido a reestruturação produtiva, somada ao neoliberalismo, acaba por constituir uma investida do capital na produção, debilitando as condições de articulação e de vida da classe trabalhadora, pois estabelece novos níveis de precariedade no mundo do trabalho, além disso, debilita-lhes também a capacidade organizativa.
Dando continuidade ao avanço das políticas neoliberais sobre a “classe” trabalhadora, iniciado durante os dois mandatos (1994-2002) de Fernando Henrique Cardoso, mantém-se o crescimento desenfreado do índice de desemprego. Segundo dados do DIEESE, o nível de desemprego passa, na Região metropolitana de São Paulo de uma média de 6% em janeiro de 1990 para uma média de 17% em janeiro de 2005 (SEADE E DIEESE/PED). Enquanto que na indústria de São Paulo, é possível também verificar uma queda acentuada no nível de postos de trabalho na indústria, que cai de um nível de 137,2 em janeiro de 1990 para 73,13 em outubro de 2004, ou seja, ocorre uma diminuição em torno de 50% dos postos de trabalho.
A contrapartida, a população ocupada no setor de serviços, sem carteira assinada e com salários precários aumenta, segundo o Dieese, o número de trabalhadores no setor de serviços passa de 7 milhões e meio em janeiro de 1990 para mais de 9 milhões e meio em 2002, ou seja, aumenta mais de 30%. Porém são empregos com pouca estabilidade, e que corriqueiramente não oferecem garantias aos trabalhadores como seguro desemprego, férias, contribuição à aposentadoria etc.
Mesmo com bons resultados na produção, durante os governos neoliberais no Brasil, houve acentuado decréscimo do nível de emprego, mesmo com aumento considerável da produtividade e lucratividade em muitos setores o nível de emprego continuou em continuo declínio. Por outro lado, os sindicatos procurando contornar o problema do desemprego, e por meio da assimilação de posturas “propositivas” e “colaborativas”, acabaram, apartados da base, na mesa com os patrões com cadeiras cativas. Os sindicatos, atingidos pelo refluxo da esquerda trabalhista, com distanciamento da organização ofensiva, passaram a negociar diretamente com o governo, empresários e industriais, afastando-se das bases operárias. Busca-se agora um sindicalismo de resultados.

PT, SINDICATO DO ABC, CUT E FORÇA SINDICAL

O que destacamos é que, a partir de declarações da direção do Sindicato do ABC, que o próprio Sindicato de São Bernardo e a CUT, seguindo uma continuidade com a política da ala majoritária do Partido dos Trabalhadores, entendem que a relação entre trabalho e capital avançou muito, talvez até mais do que necessário, pois constantemente os trabalhadores têm seus direitos assediados, e a CUT e o Sindicato abrem negociação com intuito de minimizar perdas, mas a cada negociação esvaem-se direitos trabalhistas e demais conquistas asseguradas durante a luta operária, para em troca manter a fábrica instalada no ABC ou para cortar menos postos de trabalho.
Grandes contingentes de operário compuseram núcleos para construção do PT, de acordo com um dos operários do ABC entrevistados para está pesquisa, os operários faziam quermesse, com violeiros, barraquinhas e todos os recursos arrecadados eram revertidos para o PT, com isso, segundo um entrevistado, “e o partido foi se ajeitando”, “Empresários foram gostando da proposta do PT e começaram a ajudar o partido com recursos financeiros, um deles era o empresário José de Alencar” . Embora apoiado por uma ínfima minoria de setores abastados, frações de classe média, pequena burguesia progressista e intelectuais, o PT era um partido composto por uma ampla base de trabalhadores, com grande inserção na montadoras e autopeças do ABC. Nascido em meio a um intenso processo de luta contra a superexploração do trabalho, “O PT era muito discriminado, mas era grande, [diziam que o partido] só tinha bandido, cachaceiros, vagabundos, essa era a idéia que se tinha do PT” .

SOBRE O PT HOJE

Entrevistamos um operário que trabalha na Volkswagen, o mesmo é membro do Partido desde a década de 1980, é também membro da Comissão de Fábrica da Volkswagen. Para analisar as transformações pelas quais passou o partido tomou como ponto de partida de o fato que ficou conhecido como “O escândalo do mensalão”. Segundo o entrevistado:

O PT é complicado. Causou uma decepção muito grande em seus militantes. O PT tinha muita moral para cobrar outros partidos. Os militantes tinham orgulho da diferença do PT em relação aos outros partidos, e seus políticos era um partido honesto com políticos que queriam fazer diferente, que se propunha a ser diferente. Os outros partidos eram todos aglomeração de sem-vergonha, ladrões que roubavam o povo. “Está vendo você não vota no PT, você vota nesses caras, é tudo ladrão!” .
Evidencia-se por meio deste relato que o escândalo causou impacto negativo nos militantes de base, os operários de chão-de-fábrica. Complicou a situação dos militantes que estão nos bairros, longe do Palácio do Planalto, dos Mistérios, da Assembléia legislativa e do Congresso, os militantes de base ficaram sobre pressão direta do restante da população. O mesmo operário relembra a pressão social a qual fora exposto, “está vendo, olha seu partidinho ai, é igual aos outros, é tudo ladrão!”. (...) “Isso para gente foi como uma facada no coração”. Muitos militantes comprometidos com a necessidade de transformação social no Brasil, que lutam pelo fim da desigualdade, se desvincularam do partido. “Eu comprei muita estrelinha para por no peito, toda campanha tinha que comprar, estrelinha camiseta para ajudar o partido”.
Em relação à mesma questão um jovem operário de 24 anos de idade, que também é ligado à ala majoritária do PT, da CUT e da Comissão de fábrica da Volkswagen.

Teve muitas mudanças, uma coisa é ser oposição, outra coisa é ser governo. Ser governo não é simples, conciliar interesses, aglutinar pessoas, o PT teve uma mudança de visão e de prioridade. Antigamente a prioridade era chegar ao governo, hoje a prioridade é fazer o governo funcionar e manter o governo. Xingava a direção, agora senta com ela. Parece uma perda de identidade, mas é um amadurecimento do partido. Esse amadurecimento não foi bem aceito por algumas correntes do PT, que se desligaram do partido, como no caso do PSOL e de Marina Silva .
E prossegue afirmando que “O que mais mudou no PT foram as prioridades. Pensar o PT como um partido de governo”. Agora, a luta do PT foi deslocada, se no inicio da sua formação, sobre pressão da base proletária, incorporava o discurso da luta contra o patronato, hoje, como governo o principal inimigo identificado o PSDB, que é encarado como a burguesia mais atrasada do país.

MUDANÇAS NA CUT

A articulação sindical conseguiu perpetua-se na direção do sindicato do ABC, hegemoniza também as Comissões de Fábrica. O sindicato do ABC, assim como a Central Única dos Trabalhadores, marcharam juntas, contribuindo ativamente e seguindo as transformações e as orientações do Partido dos Trabalhadores, que se centravam no abandono de um suposto “radicalismo” da década de 1980. Um dos nossos entrevistados, que nunca conseguiu participar de

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